sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Resenha do filme: Corra Lola, corra.




Por: Luciana Rodrigues Vasconcellos e Tatiana Santos Teixeira.



“Corra Lola, Corra” é um filme de ação produzido na Alemanha em 1998, cujo nome original é Lola Rennt, do diretor e roteirista Tom Tykwer. A protagonista do longa metragem Franka Potente interpreta Lola, uma jovem ruiva que vive uma frenética corrida contra o tempo a fim de salvar o namorado Manni (Moritz Bleibtreu) de uma enrascada que pode custar sua vida. Para isso, Lola perpassa três caminhos mas, somente um a levará a onde quer considerando que durante seu percurso encontra-se em situações e com figuras influentes no seu destino.

O filme exige do telespectador capacidade de associar idéias rapidamente, visto que é um filme de muita ação que contém ao mesmo tempo uma densa reflexão sobre a vida e experiência humana. À Lola foi dada a possibilidade de experenciar três destinos diferences, de viver três possibilidade de conduta para alcançar seu objetivo. Sabemos nós, que não temos a mesma chance de Lola, contudo o filme nos desperta para atentar sobre o que estamos realmente fazendo para alcançar nossos desejos, como nos relacionamos e como afetamos os outros e nosso meio.

Parece uma contradição pensar, em uma sociedade individualista como a nossa, que nossa atuação no mundo em prol de realização pessoal não pode se reverter em um resultado contrário, agimos em busca de nossos sonhos e anseios e nossa ação resulta em fracasso e morte. Como é possível tal contradição? “Corra Lola, corra”, retrata nada mais que o rítimo da vida moderna que não nos deixa tempo para refletir sobre as decisões que tomamos, muito menos, para atentar para nosso próprio comportamento e as possibilidades que o meio nos apresenta. Lola, só conseguiu realizar-se quando literalmente não atropelou a si mesma e aos outros, a personagem precisava correr, mas é quando pára que ganha tempo.

Atualmente, o tempo subjetivo não corresponde ao tempo de ação, levamos a vida com pressa e nossa mente parece voar na velocidade da luz. Contudo, o filme destaca que é preciso equalizar o tempo para convertê-lo em ação efetiva, enxergar o que nos cerca e somente assim alcançar a tão desejada realização pessoal.

“Corra, Lola, corra” trás o retrato atual dos dilemas da vida moderna presentes nos mais simples detalhes como em animações gráficas e fotografias que passadas como lampejos de memória representam o passado e o futuro dos personagens. O filme conta ainda com uma trilha sonora elétrica e empolgante capaz de envolver o mais distraído telespectador.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Os neurônios que podem ler mentes



"Células cerebrais chamadas de espelho são capazes de analisar cenas e interpretar as intenções dos outros
"



"Sandra Blakeslee escreve para o The New York Times:

Há 15 anos, num verão em Parma, na Itália, um macaco esperava em um laboratório que os pesquisadores voltassem do almoço. Delicados fios haviam sido implantados na região do seu cérebro que planeja e executa movimentos. (precisava disso?)

Todas as vezes que o macaco agarrava ou movimentava um objeto, algumas células dessa região do cérebro disparavam e um monitor registrava um som.

Um aluno de pós-graduação entrou no laboratório com uma casquinha de sorvete na mão.

O macaco olhou fixamente para ele e, em seguida, algo espantoso aconteceu: quando o estudante levou a casquinha aos lábios, o monitor soou novamente ? mesmo o macaco não tendo feito nenhum movimento, apenas observado o aluno.

Os pesquisadores, chefiados por Giacomo Rizzolatti, um neurocientista da Universidade de Parma, já tinham observado esse mesmo estranho fenômeno com amendoins.

As mesmas células cerebrais disparavam quando o macaco via seres humanos ou outros macacos levarem amendoins à boca ou quando ele próprio fazia isso.

Os cientistas descobriram células acionadas quando o macaco quebrava a casca de um amendoim ou ouvia alguém fazê-lo. O mesmo ocorria com bananas, uvas passa e todo tipo de objetos.

"Demoramos anos para acreditar no que estávamos vendo", diz Rizzolatti.

O cérebro do macaco tem uma classe especial de células, os neurônios-espelho, que disparam quando o animal vê ou ouve uma ação e quando a executa por conta própria.

Mas, se essas descobertas, publicadas em 1996, surpreenderam a maioria dos cientistas, uma recente pesquisa deixou-os estupefatos.

Descobriu-se que os seres humanos têm neurônios-espelho muito mais perspicazes, flexíveis e altamente evoluídos do que os encontrados nos macacos, um fato que teria resultado na evolução de habilidades sociais mais sofisticadas nos seres humanos.

O cérebro humano tem múltiplos sistemas de neurônios-espelho especializados em executar e compreender não apenas as ações dos outros, mas suas intenções, o significado social do comportamento deles e suas emoções.

"Somos criaturas requintadamente sociais", diz Rizzolatti. "Os neurônios-espelho nos permitem captar a mente dos outros não por meio do raciocínio conceitual, mas pela simulação direta. Sentindo e não pensando."

A descoberta está sacudindo várias disciplinas científicas, alterando o entendimento de cultura, empatia, filosofia, linguagem, imitação, autismo e psicoterapia. E também de fatos do cotidiano.

Os neurônios-espelho revelam como as crianças aprendem, por que as pessoas gostam de determinados tipos de esporte, dança, música e arte, por que assistir a cenas de violência na mídia pode ser danoso e por que há quem goste de pornografia.

Encontradas em várias partes do cérebro, essas células disparam em resposta a cadeias de ações relacionadas a intenções.

Algumas são acionadas quando uma pessoa estende a mão para pegar um copo ou observa alguém pegar um copo; outras disparam quando a pessoa coloca o copo sobre a mesa e outras ainda quando a pessoa estende a mão para pegar uma escova de dentes e assim por diante.

Elas reagem quando alguém chuta uma bola, vê uma bola sendo chutada e diz ou ouve a palavra "chutar".

"Quando você me vê executar uma ação, você automaticamente simula a ação no seu cérebro", diz Marco Iacoboni, neurocientista da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), que estuda o tema.

"Circuitos cerebrais o inibem de se mover, mas você entende minhas ações porque tem no seu cérebro um padrão dessa ação baseado nos seus próprios movimentos."

Em resumo, ao observar a ação de outra pessoa, conseguimos interpretar suas intenções.

"E, se você me ver emocionalmente aflito por ter perdido uma cesta, os neurônios-espelho do seu cérebro simulam minha aflição. Automaticamente, você sente empatia por mim porque, literalmente, sente o que estou sentindo."

Os neurônios-espelho parecem analisar cenas e ler mentes.

Biologia e cultura

Até então, os estudiosos vinham tratando a cultura como fundamentalmente separada da biologia.

"Mas agora vemos que os neurônios-espelho absorvem a cultura diretamente, com cada geração ensinando a próxima por meio do convívio social, imitação e observação", completa Patricia Greenfield, psicóloga da UCLA.

"Outros animais ? macacos, provavelmente, e, possivelmente, elefantes, golfinhos e cães ? têm neurônios-espelho rudimentares."

Toda a linguagem é baseada em neurônios-espelho, segundo Michael Arbib, neurocientista da University of Southern California. Tal sistema, encontrado na parte frontal do cérebro, contém circuitos superpostos para a língua falada e a linguagem dos sinais.

Num artigo publicado na revista Trends em Neuroscience (Tendências na Neurociência), em março de 1998, Arbib descreve como gestos de mão e movimentos complexos da língua e dos lábios usados na formação de sentenças fazem uso do mesmo mecanismo.

Alguns cientistas acreditam que o autismo pode estar relacionado a neurônios-espelho malformados.

Estudo publicado na revista ?Nature Neurosciente? (janeiro) de autoria de Mirella Dapretto, neurocientista da UCLA, revela que, embora muitas pessoas autistas consigam identificar expressões emocionais, como a tristeza no rosto de outra pessoa, e até mesmo imitar olhares tristes, não percebem o significado emocional da emoção imitada.

Mesmo observando outras pessoas, não sabem como é se sentir triste, com raiva, desgostoso ou surpreso."
(O Estado de SP, 29/1)

Fonte: Jornal Ciência.

Veja também: 1.1 Um enigma e uma hipótese

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Paciente com Aids sofre mais por questões psicológicas do que com ação do HIV Do UOL Ciência e Saúde


Paciente com Aids sofre mais por questões psicológicas do que com ação do HIV
Do UOL Ciência e Saúde

Um estudo realizado com pessoas em tratamento contra Aids no Brasil mostra que os soropositivos sofrem mais com problemas relacionados a interação social do que com a ação do vírus no organismo. Os números fazem parte da pesquisa “Percepção da qualidade de vida e do desempenho do sistema de saúde entre pacientes em terapia antirretroviral no Brasil”, divulgada nesta terça-feira (1º), Dia Mundial de Luta Contra Aids.

A pesquisa, realizada pela Fundação Oswaldo Cruz em 2008 com 1.260 pessoas, indica que 65% dos pacientes avaliam seu estado de saúde como bom ou ótimo, número que supera o da população geral, que é de 55%. Em relação a portadores de outras doenças crônicas, o contraste é ainda maior, já que só 27% delas classificam sua saúde como boa ou ótima.

No entanto, quem está em tratamento com o coquetel anti-Aids sofre mais com problemas psicológicos. Entre as soropositivas, 33% afirmam ter grau intenso ou muito intenso de tristeza ou depressão e, 47%, grau intenso ou muito intenso de preocupação e/ou ansiedade. Entre os homens, o índice é um pouco menor: 23% e 34%, respectivamente. Na população geral, apenas 15% da população relata um grau intenso ou muito intenso de tristeza ou depressão. E a ansiedade é queixa de 23% das pessoas.
Preconceito

“Concordo com a pesquisa. A ação do vírus é totalmente controlada pelo coquetel. Agora, a interação social é bem mais complexa e envolve uma série de coisas. A maioria dos soropositivos prefere não contar que tem o HIV, porque o preconceito é muito forte e existe de forma dissimulada", testemunha Samir Thomaz, autor do livro “Te Espero o Tempo que For” (Ed. Brasiliense), livro que retrata o amor entre um soropositivo e uma pessoa sem o vírus.

A análise das entrevistas também mostra que os pacientes de Aids tem um nível de educação superior ao da média da população brasileira. Apesar disso, a distribuição de renda é semelhante. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad-2006), cerca de 67% da população brasileira, com 18 anos ou mais, tem rendimento mensal menor que dois salários mínimos, proporção semelhante à encontrada entre os pacientes de Aids (69%).

O estudo revela que ainda existe muito preconceito e discriminação em relação ao HIV, já que mais de 20% dos entrevistados relataram ter perdido o emprego após o diagnóstico. Na ocasião da pesquisa, 58% dos soropositivos não estavam trabalhando (55% entre os homens e 62% entre as mulheres).

Entre os pacientes homens, aposentadoria por doença (31,3%), incapacidade (14,7%), e recebimento de auxílio doença (24,6%) foram os principais motivos alegados para não estarem trabalhando. Entre as mulheres, 28% são donas de casa, 15,4% são aposentadas pela doença, 11% relataram incapacidade para o trabalho, e 15,4% recebem auxílio doença.
Influências

Os pesquisadores que conduziram o estudo desenvolveram um modelo estatístico para verificar os principais fatores associados à autoavaliação do estado de saúde como excelente ou boa. Fatores sociais como escolaridade e renda impactam positivamente. Por outro lado, estar aposentado por motivo de doença, incapacitado para o trabalho ou recebendo auxílio doença diminui em 55% a chance de ter boa autoavaliação do estado de saúde.

PERDAS APÓS O DIAGNÓSTICO
Piora nas condições financeiras 36,5%
Piora na aparência física 33,7%
Discriminação social 20,9%
Perda do emprego 20,6%
Falta de suporte familiar 16,2%
Discriminação pelos amigos 15,9%
Perda da independência 15,2%

presença de sintomas da doença também reduz em 40% a chance de autoavaliação positiva. Ter iniciado o tratamento a partir de 2007 também é um fator negativo, provavelmente porque esses pacientes ainda não recuperaram seu sistema imunológico devido ao pouco tempo de tratamento e ainda estejam sofrendo com os efeitos colaterais do início do tratamento e do diagnóstico recente.
Perdas e ganhos

A pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz também avaliou os ganhos e perdas dos soropositivos após o diagnóstico. Entre os entrevistados, 43,5% informaram que depois da descoberta da doença passaram a ter melhor assistência à saúde e 18,6% afirmaram ter mais suporte social. Entre as perdas, a mencionada pelo maior número de pessoas foi a piora das condições financeiras (36,5%), seguida da aparência física (33,7%).

Os resultados da pesquisa são representativos de toda a população em tratamento antirretroviral, atualmente estimado em cerca de 200 mil pessoas.


A divulgação do estudo coincide com o lançamento, pelo Ministério da Saúde, da campanha “Viver com Aids é possível. Com o preconceito não”. No site elaborado para a ocasião, é possível deixar mensagens, fotos e vídeos sobre o tema.

A campanha também contou com a participação do artista plástico paulista Vik Muniz, radicado em Nova York, que produziu três obras de arte inspiradas no combate ao preconceito aos soropositivos. Os quadros foram doados ao Museu de Arte de São Paulo (Masp).
Campanha
GANHOS APÓS O DIAGNÓSTICO
Maior suporte social 18,6%
Melhor assistência de saúde 43,5%
Envolvimento com organizações civis e sociais 10,4%
Sentimento de ser especial 17,6%
Nenhum 38,0%
O jornalista Paulo Giacomini, mantém o blog "Saúde e Aides" onde relata a experiência de viver com Aides e também fornesse várias informações a respeito da doença e do preconceito que ainda persiste na sociedade brasileira. O blog foi vencedor Top 100 mais votados na categoria Saúde no juri popular e vencedor Top 2 no juri acadêmico do concurso realizado pelo Top Blog.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Série Pensadores Lev Vygotsky IV

Série Pensadores Lev Vygotsky III



domingo, 29 de novembro de 2009

Especismo e Ciência: Ver para crer



segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ato Médico: debate na Rede Humaniza SUS

A rede Humaniza Sus é uma rede de relacionamentos destinada a todos aqueles interessados na política de humanização do Sistema Único de Saúde. A rede contém espaço para criação de blogs e neles encontramos perfis de vários profissionais da saúde e diversos temas ligados à saúde e ao SUS são debatidos em comentários e posts. Encontrei um texto interessante de Ricardo Sparapan Pena sobre o Ato médico e transcrevo aqui.


"Olá, pessoal!
Vejo um burburinho rolando aqui na rede em relação ao Ato Médico. Mas que ato é esse? E por que tem esse nome? Ato Médico??????????? Quem falou isso?
Sou psicólogo, trabalhei em CAPS por 7 anos, em Unidade Básica de Saúde com Estratégia de Saúde da Família, em Penitenciária... Andei muito nas famosas ambulâncias do SAMU percorrendo a cidade e fazendo atendimentos de urgência à pacientes portadores de transtorno mental grave junto de médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem, motoristas, vizinhos, familiares, ou seja, todos os que se envolvessem com a situação em questão. Bati boca na porta de pronto-socorros com aqueles que se recusavam a receber os pacientes por um curto período, para que esses pudessem ser avaliados pelas equipes dos CAPS das regiões onde moravam no dia seguinte, em virtude de “n” complicações que encontrávamos no funcionamento da rede. Fiz vários Acompanhamentos Terapêuticos com esses pacientes pela cidade, trabalhei com diversos profissionais em várias oficinas terapêuticas dentro ou fora do CAPS, dei banho e comida na boca para muitos pacientes quando foi necessário e nunca precisei afirmar a minha “identidade” de psicólogo ou precisei esfregar o meu CRP na cara de alguém nas muitas vezes em que saí sujo e cansado do serviço por conta do excesso de demanda. Também não me considero herói por causa disso, apesar do baixo salário e da função mais do que generalista que eu cumpria.

É por isso que venho aqui para dizer que a questão do Ato Médico, se fosse simplesmente uma boa discussão sobre o ATO ou o AGIR em SAÚDE, seria muito mais produtiva. Já trabalhei com médicos muito bons e que de fato estavam interessados na potência que reside na relação entre o trabalhador da saúde e o paciente, nesta relação que se transforma no palco das mais variadas possibilidades de intervenções terapêuticas e de invenção da vida, assim como com enfermeiros, técnicos em enfermagem e assistentes sociais que ofereciam uma boa escuta no contato com os usuários. Já me sentei com médicos para fazer oficinas terapêuticas no CAPS, grupos terapêuticos na Penitenciária (e isso era possível sim!), já andei de ônibus com médicos para levar os usuários do CAPS ao cinema, já vi médicos acompanhando usuários à escola no momento da matrícula, já fiz “n” Acompanhamentos Terapêuticos em parceria com os médicos, já os vi organizando a bagunça das casas juntos dos usuários mais comprometidos do serviço, já trabalhei com médicos que despessoalizavam os seus saberes e se faziam repórteres para que a oficina de jornal do CAPS funcionasse, absolutamente adorando o que faziam porque a possibilidade de criação de outros modos de trabalhar na saúde se fazia presente. Já discuti casos de pacientes psicóticos com vários especialistas, pois nas múltiplas conformações delirantes da vida, muitos pacientes se sentiam vigiados e controlados por algo externo aos mesmos, mas de algum modo, localizado em seus corpos. Após exames atenciosos feitos por estes profissionais, pudemos juntos trabalhar com os usuários a aceitação do uso da medicação antipsicótica quando nenhuma outra alteração era constatada. Já vi muitos profissionais se desgarrarem de suas identidades profissionais e quebrarem o corporativismo em si próprios em prol da ampliação da clínica.

Assim, penso que isso é produzir rede, trabalhar em equipe, qualificar o discurso e atuação profissional em sua diversidade, é des-especializar e des-absolutizar os corporativismos que fragmentam o nosso campo de trabalho. É desconstruir verdades em relação aos nossos saberes e produzir novos mundos juntos dos usuários. É deixar a vida e o trabalho mais leves, é levar as sutilezas a sério, é considerar de fato o que é um problema relevante a ser enfrentado, é sair do plano da segurança que uma identidade profissional ilusoriamente nos dá e nos lançar aos desafios e riscos inerentes à produção da vida, pois produzir saúde pode ser sinônimo de produzir vida.

Nunca, em meu percurso profissional, apliquei uma injeção ou fiz um curativo que necessitasse de uma indicação técnica precisa. Nunca prescrevi medicação, mas já me vi , assim como aos meus colegas e como a maioria dos profissionais já se viu um dia, prescrevendo condutas que hoje as classifico mais como morais do que como terapêuticas. Sempre cumpri horário e não culpava a gestão pelos faltosos, mas buscava entender porque o peso do trabalho gerava isso.. Não sou nenhum missionário da saúde e já me vi indignado milhões de vezes com algumas coisas que meus colegas faziam. Porém, aprendi muito com tudo isso. Mas o maior aprendizado é o da não necessidade de uma “identidade profissional” totalizante, fragmentária e que alavanca lutas por regulamentações desnecessárias, como a que requer o ato médico.

Ato Médico é uma invenção que supostamente daria conta de assegurar a uma parcela da classe médica a sua própria existência, a qual só acontecerá de fato se estiver protocolada e rubricada pelo Senado Federal. Mas existir dependendo da aprovação de uma lei é reduzir a vida aos ditames da burocracia, é buscar legitimidade no escuro e não na experiência da vida, é fugir dos riscos e não experimentá-los com prudência, é conseguir se esconder no claro, é afirmar que a vida só acontece se preenchermos as nossas faltas, como se o papelzinho da aprovação da lei fosse a condição de subsistência do profissional médico, é afirmar o poder pela força, é negar o coletivo como fonte de produção da vida, do trabalho, da saúde, é girar em torno de um falso problema.

Podemos então dedicar atenção a produção do ATO, do ACT, do ACTIO, do agir em saúde, daquele com a qual a maioria dos trabalhadores da saúde está envolvida e trazer à discussão as questões que enfrentamos na produção de redes de cuidado.

Um dos grandes temas que nos rodeia frente às redes de cuidado é o trabalho em equipe. É difícil trabalhar em equipe porque temos que nos deparar não apenas com o sofrimento dos usuários, mas com as dores dos trabalhadores que estão imersos na produção serializada da saúde. Mas tal produção é dolorida também por causa da “exclusão” de alguns grupos profissionais. A enfermagem, p.ex., mesmo sendo dominante nos serviços de saúde é constantemente acusada de ser um entrave para a facilitação da clínica por conta de seus rígidos protocolos e de uma formação voltada para a gestão taylorista dos processos de trabalho. Mas, será que é essa categoria que trava o trabalho? Psicólogos, terapeutas ocupacionais e psiquiatras, quando constituem a equipe de saúde mental de um determinado serviço, são constantemente acusados de serem taxativos e donos da verdade frente ao sofrimento alheio. Quando não são demonizados, são endeuzados porque lidam com problemas que a maioria das equipes não quer chegar perto. Médicos especialistas devem ter agendas abertas para os usuários marcados no dia e dar conta das vagas de urgência. Em que momento eles discutem casos? Além disso, são apontados como MÉDICOS, e não como integrantes das equipes. Médicos especialistas??? Só conseguirão atender daqui há 3 meses!
Dá pra ver, apenas por estes pequenos exemplos que a dificuldade não se resume apenas à gestão. A PNH tem como um de seus princípios a inseparabilidade entre gestão e clínica. Sendo assim, como articular a construção da clínica sem excluir dela o componente da gestão? Como fazer para deixar de olhar para as categorias profissionais que “incomodam” como excluídas e vê-las como incluídas no processo de trabalho e nos dizendo alguma coisa sobre este? Isso já não dá uma boa e relevante discussão?

Na clínica, na parceria entre trabalhadores e usuários, todos somos gestores de uma vida em processo, de um sintoma que se concretiza e exige ações. Sendo assim, construir um diagnóstico frente aos sintomas é uma tarefa coletiva. O diagnóstico nos revela o processo de construção de algo que varia em um corpo, que foge da estabilidade e se afirma de modo diferente. Cuidar não significa apenas classificar, aplicar técnicas terapêuticas ou fazer procedimentos. Podemos, ao invés disso, fazer do procedimento um ato coletivo; transformá-lo em ATO; um ato que na transversalidade de saberes na área da saúde pode nos fazer escutar o paciente para além de seus sintomas e nos auxiliar a diagnosticar, orientando trabalhadores e usuários em formas de como lidar com as doenças, sejam elas graves ou crônicas. Mas, fundamentalmente, o diagnóstico não é a certeza da sabedoria do médico ou de qualquer outro profissional e por isso ele deve ser compartilhado, e não privatizado como almeja o ato médico.

E finalizando, para não deixar esse post mais cansativo do que a luta pela aprovação do ato médico, retomo a questão do ato médico como um falso problema. Penso que o pouco que coloquei acima pode nos servir como um respiro no meio deste esmagamento da diversidade de práticas e saberes. Ato médico é sim um falso problema. Se ele, como colocado aqui nesta rede também já foi chamado de “tanto faz”, é fato que ele não precisa existir. E, por ser um falso problema, fazer campanha para que ele se efetue é um desgaste. É um desgaste tão grande que vai gerar rugas. Mas a todos os profissionais médicos e não médicos (mas todos inclusos aqui) e que se desgastam com essa batalha, eu só peço uma coisa: entendam, por favor, que essa ruga é uma marca que a vida deixou em vocês; é a expressão inscrita em vossos corpos da luta pela qual estão implicados. E as marcas que a vida nos imprime quando nos atravessas são sim extremamente valiosas, não devendo ser apagadas. Então, que as marcas sejam valorizadas, e não transformadas em motivos para pequenas intervenções cirúrgicas.

CONTRA O ATO MÉDICO E A FAVOR DO OLHAR PARA A MULTIPLICIDADE DE PRÁTICAS E SABERES NA SAÚDE!

Um grande abraço a tod@s!"

Ricardo Sparapan Pena

Para conhecer a Rede Humaniza Sus e ver mais discussões e opiniões sobre o assunto acesse:
http://redehumanizasus.net/

Blog do Ricardo S. Pena: http://redehumanizasus.net/node/8630

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Diálogo entre Aaron T. Beck e Dalai Lama: semelhanças entre a filosofia oriental budista e a psicoterapia cognitiva


Aaron T. Beck, M. D. Gotemburgo, 13 de junho de 2005
Cópias em DVD do diálogo estão agora disponíveis. Para encomendar, por favor visite o Beck Institute Store.





Judy Beck e me encontrei com o Dalai Lama, inicialmente em sua sala privada no hotel para uma discussão informal, um par de horas antes do diálogo real pública. Também irão se Paul Salkovskis, Astrid Beskow, e vários de seus próprios representantes, incluindo o seu intérprete de longa data. Inicialmente, apresentei Sua Santidade com uma cópia da revista Life, de 1959, que tinha uma foto da capa dele recebendo buquês de seus simpatizantes americano após sua fuga do Tibete para os Estados Unidos. Ele parecia contente em ver essa imagem muito mais de si mesmo. Eu também lhe presenteou com uma cópia impressa dos Prisioneiros de Ódio. Ele parecia tomada pelo título, que sintetizou o seu próprio ponto de vista que aprisiona o ódio das pessoas que o sentem. Em seguida, ele comentou que deve haver seis bilião prisioneiros no mundo!

Em um nível pessoal, eu o achei carismático, quente, envolvente e muito atento ao que eu tinha a dizer. Ao mesmo tempo, ele parecia manter um distanciamento objectivo, não só comigo mas também com os membros da comitiva. Ele também me impressionou com sua sagacidade e sabedoria e sua capacidade para captar as nuanças de temas muito complexos.

O diálogo foi realizada no Centro de Convenção de Gotemburgo, com cerca de 1400 participantes no Congresso Internacional de Psicoterapia Cognitiva. De acordo com seu desejo expresso, eu comecei o diálogo. Eu comecei a recitar o dúzia principais pontos de semelhança entre o budismo tibetano e terapia cognitiva (listados abaixo). Após recitei quatro ou cinco semelhanças, ele interrompeu com a afirmação de que eles eram tantos como artigos como ele poderia absorver de uma vez.

Meu principal desafio foi a caixa de diálogo para informá-lo sobre a abordagem cognitiva para os problemas humanos sem de modo algum tirar a filosofia geral e de psicologia do budismo. Minha estratégia foi a de encontrar locais adequados, em seu discurso onde eu poderia introduzir conceitos cognitivos que foram importantes de alguma forma para sua linha de pensamento. Tentei representar a abordagem cognitivo como um sistema válido ou disciplina em sua própria direita que se sobrepunham, mas também foi de cortesia ao budismo. Eu também tinha que ser consciente de minha escolha de palavras. Apesar de Sua Santidade é muito fluente em Inglês falando, ele não está familiarizado com palavras mais técnicas, especialmente aquelas para as quais não existem equivalentes tibetano. Por exemplo, ele usou o termo "pensamentos negativos", que eu repeti em detrimento da mais técnico (e precisa) termos cognitivos, como auto-destrutivo pensamentos ou cognições disfuncionais.

Entre os pontos que eu trouxe para cima, que ele então expandiu de seu próprio ponto de vantagem, foi que ambos os sistemas usam a mente para entender e curar a mente. Aceitação e compaixão semelhanças fundamentais. Coisas também, em ambos os sistemas, tentamos ajudar as pessoas com suas overattachment de material e símbolos (de sucesso, etc, algo que chamamos de "vício"). Eu dei um exemplo de caso de um cientista que estava tão deprimida ligado ao sucesso (neste caso, especificamente ganhar um Prêmio Nobel) que ele excluiu todo o resto de sua vida, incluindo a sua família. Eu tinha usado uma estratégia típica cognitiva para dar a perspectiva do paciente. No curso de uma única sessão, ele mudou de opinião e superou sua depressão (pelo menos temporariamente). A resposta do Dalai Lama para esta anedota foi: "Você deve receber o Prémio Nobel da Paz".

Outro ponto que levantei foi a nossa distinção entre dor e sofrimento. Eu sugeri que grande parte do sofrimento das pessoas é baseada no fato de que eles se identificam com a dor. Pessoas que são capazes de separar (a distância ") se da dor e vê-lo mais objetivamente tinha sofrimento significativamente menos (como apontado pelo grupo Tom Sensky em Londres). Sua Santidade parecia entusiasmado com este conceito e, em seguida, disse em uma maneira divertida de que talvez ele poderia usar esse conceito para ajudar a si próprio com sua coceira crônica. (Este comentário meia-sério, é claro, provocou uma grande quantidade de risos da platéia.) Mais tarde, ele se refere à terapia cognitiva como semelhante a "meditação analítica."

Perguntei a Sua Santidade como ele pensou que a sua mensagem poderia realmente ter raiz no mundo. Ele, então, expandiu suas idéias que a educação tinha que ser a resposta. Ele também expressou a sua própria filosofia, que ele descreveu como a ética secular. Apesar de pessoas de diferentes credos poderia abraçar os valores que ele expressa, como a aceitação total de todos os seres vivos, ele não sente que a religião era um instrumento necessário para isso. Ele parecia ecoar o que também é a essência da abordagem cognitiva, ou seja, auto-responsabilidade, em vez de depender de alguma força externa para inspirar as normas éticas. Como acredito que a TC também considera o comportamento ético e moralmente destrutivos, como um problema cognitivo e, portanto, seria a favor de uma moralidade "cognitiva", que mais tarde foi capaz de obter este ponto em toda, mas com palavras diferentes. Quando ele pediu-me para a minha visão da natureza humana, eu respondi que eu concordamos que as pessoas estavam intrinsecamente bom, mas que o fundo de bondade era tão cobertas com camadas e mais camadas de "pensamentos negativos" que um tinha que remover as camadas para a bondade de emergir. Ele expressou a convicção de que o pensamento positivo (com foco em coisas positivas e boas) foi a maneira de neutralizar os negativos na natureza humana. Minha posição foi a de que a melhor maneira de alcançar este objetivo foi identificar os erros e corrigi-los pensar. Depois que concluiu o diálogo, Paul Salkovskis deu um somatório dos temas pendentes que tínhamos coberto.

Desde Astrid Beskow (organizador do prodigioso do evento) foi descoberto por acaso que este foi o seu aniversário, houve uma pequena festa de aniversário, durante a qual foi então dado um grande buquê. Ele então deu Astrid, Paul, e eu um xale de orações budistas. Eu aprendi mais tarde a um intermediário que apreciou o diálogo e que iria pensar sobre vários pontos que eu levantei.

Tudo somado, foi uma experiência emocionante para mim e, pelo que eu ouvi de vários dos participantes, também para o público.

De minhas leituras e discussões com Sua Santidade e budistas, estou impressionado com a noção de que o Budismo é a filosofia e psicologia próximo à terapia cognitiva e vice-versa. Abaixo está uma lista das semelhanças que eu sugeri para o Dalai Lama em nossa reunião privada. Claro, existem muitas estratégias que usamos como teste crenças em experimentos e formulação do caso, que não fazem parte da abordagem budista.

Semelhanças entre Terapia Cognitiva e Budismo

I. Objetivos Serenity, Peace of Mind, Alívio do Sofrimento
II. Valores
(1) importância da aceitação, compaixão, conhecimento, entendimento
(2) Altruísmo versus Egoísmo
(3) Universalismo vs groupism: "Nós somos um com toda a humanidade."
(4) Science vs Superstition
(5) Auto-responsabilidade
III. Causas de perigo:
(1 vieses) Egocentric levando a raiva excessiva ou inadequada, inveja, desejos, etc
(das "toxinas") e falsas crenças ( "delírios")
(2) Subjacente crenças de auto-derrotando que reforçam preconceitos.
(3) Anexar significados negativos para eventos.
IV. Métodos:
(1) Concentre-se no imediato (aqui e agora)
(2) direcionar o pensamento tendencioso por meio de (uma introspecção), (b) A reflexividade, (c) Perspectiva de reféns, (d) Identificação de "tóxicos" crenças, (e) distanciamento, (f) experiências construtivas, (g) Criando "crenças positivas"
(3) uso de imagens
(4) Separar a aflição da dor
(5) a formação da Consciência

Fonte:http://www.beckinstitute.org/Library/InfoManage/Zoom.asp?LookFor=dalai&InfoID=325&RedirectPath=Add&FolderID=212&SessionID={6D629549-06B8-4660-8EE7-086397456388}&InfoGroup=Main&InfoType=Article